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 A profunda formação  do apóstolo Paulo no pensamento judaico

Não se nega, o que seria um equívoco claro, a formação profunda do apóstolo Paulo no pensamento judaico. A questão gira em torno da análise do seu discurso. Paulo, claro, também tinha formação greco-romana. No campo da filosofia, os “pais” dos romanos, foram os gregos. Paulo sabia que para alcançar os gentios teria de utilizar da linguagem de conhecimento que lhes influenciava. Qual seja, o método grego. Como falaria para os romanos? Aos de efésios? entre outros, se não se esforçasse para explicar o evangelho (graça, etc.) na forma do discurso que lhes eram peculiar?

 

É o que resume Alessandro Rocha, apoiando-se, entre outros, em Félix Alexandre Pastor (A lógica do inefável), Paul Tillich (História do pensamento cristão), e Libânio (em Introdução à teologia):

 A metafísica

“A filosófica grega clássica expandida no helenismo, somada sincreticamente a outras práticas filosóficas e religiosas do mundo romano, constituiu o suporte cultural do discurso teológico cristão. Não há determinismo cultural nessa teologia. E sim uma forma de influência, sobretudo na dimensão da teoria do conhecimento, que só é possível com a linguagem. A linguagem teológica do teísmo cristão nasce do encontro da mensagem profético-evangélica da divina monarquia com o mundo da cultura grega, especialmente com a filosofia do platonismo.”

 

E, em outro ponto, comenta:

 

A teologia cristã encontra na filosofia grega o instrumental teórico capaz de lhe permitir comunicar sua experiência de fé de forma cognoscível. Para além dos conteúdos intercambiados nessa aproximação, é fundamental perceber a apropriação das estruturas interiores do pensamento grego, identificadas aqui, principalmente, como metafísica e lógica.”

 

Resumindo, a metafísica é a teoria do conhecimento que afirma haver uma essência dos entes – isto é, existe uma essência meta-física de tudo o que existe (o mundo das ideias de Platão). Assim, toda realidade tem uma representação conceitual, que deve exprimir sua essência. E a lógica é a que trabalha com a ideia de não-contradição (já que existe uma essência, não pode haver múltiplos contraditórios). Esses elementos, e mais outros, formam as características do tipo de discurso grego, o qual, diante disso, passa a ser marcado pela univocidade. Novamente na explicação de Alessandro Rocha,

 

“[…] [a metafísica tem] sua ênfase na afirmação do ser como essência dos entes e na negação do múltiplo e consequente afirmação do uno, identifica a verdade em sua única possibilidade, em sua condição unívoca. A segunda [lógica], com sua lei de não-contradição, oferece os elementos de coerção/exclusão, capazes de manter a univocidade dos discursos.

A letra Mata

Paulo, acredito, concordando com Brabo, fez de tudo para mostrar que o caminho não era a univocidade. Insistiu que a letra matava; e que o evangelho veio confundir as coisas sábias. Todavia, a linguagem que utilizou veio impregnada do método grego, o qual se tornou a lente do mundo ocidental nos séculos posteriores.

 

Hannah Arendt também fala dessa apropriação, lembrando, ainda, da incorporação do princípio romano de autoridade, que é outra discussão, igualmente, reveladora. Diz Arendt:

 

“Na medida em que a Igreja Católica incorporou a Filosofia Grega na estrutura de suas doutrinas e crenças dogmáticas, ela amalgamou o conceito político romano de autoridade, que era inevitavelmente baseado em um início, à noção grega de medias e regras transcendentes. Padrões gerais e transcendentes sob os quais o particular e o imanente se pudessem subsumir eram agora requeridos para toda ordem política: regras morais para todo comportamento inter-humano e medidas racionais para orientação de todo juízo individual. Dificilmente haveria qualquer outra que viesse, afinal, a afirmar-se com maior autoridade e consequências que o amálgama em si mesmo.”

Característica do método grego na linguagem de Paulo 

Uma característica do método grego, inegável no estilo de Paulo, é seu caráter dedutivo. Já que existe uma ideia essencial de tudo que real, eu parto dessa ideia essencial e aplico-a na realidade para explicá-la. Nascem, assim, os conceitos, que são representações da realidade. Por isso, também, o método de conhecimento grego busca “sistematizar, definir, expor e explicar as verdades reveladas”.

 

Paulo se preocupou justamente com isso: sistematizar, explicar, expor a mensagem viva de Jesus para os gentios, em sua grande maioria de influência grega (conhecimento) e romana (dominação política). Nesse caminho, cunhou conceitos e sistemas de como a fé cristã poderia ser vivida. Isso, para tentar explicar. O que acontece depois? A Igreja cristã assume sua matriz filosófica na tradição grega, com destaque especial para o neoplatonismo de Santo Agostinho, e, por se identificar com o discurso de Paulo, que era mais apreensível, porque construído em conceitos e sistematizações, eleva suas máximas a pressupostos irretocáveis, distanciando da intenção do próprio Apóstolo que era comunicar algo que tem a ver com o espírito, com movimento, com vida, com encarnação, e não abstração.

 

E aí o resto da história você já conhece. A reforma é de matriz filosófica grega. Lutero bebeu em Santo Agostinho. Aliás, a filosofia metafísica influenciou “livremente” o pensamento ocidental até meados do século XIX, quando começa um movimento de crítica e a introdução de uma filosofia pós-metafísica (até Hegel, generalizando). Não é por coincidência, que muitos dos pensadores que encabeçam essa crítica (Nietzsche, Heidegger…) são tidos como ateus e subversivos. Os “elogios” não poderiam ser diferentes, uma vez que o princípio filosófico dominante era (e, ainda, é) o da metafísica ou filosofia da consciência (por meio de sua consciência racional o homem acessava o saber válido e universal).

a Igreja seguiu mais Paulo do que Jesus?

Nesse sentido é que concordo com aqueles que afirmam que a Igreja seguiu mais Paulo do que Jesus. Em especial, estou me referindo ao primeiro texto do Paulo Brabo, no livro “Divinas Gerações”, que se você se interessar, eu acho que ainda dá para pegar o sample com o aplicativo kindle da Amazon.

 

Paulo, obviamente, não teve culpa disso. O Brabo diz isso com ênfase em seu texto. Chega a dizer que há um triângulo amoroso. No qual a Igreja, por vezes, acaba não fechando o vértice em Jesus. O cara (o apóstolo) escreveu cartas movidas por zelo. Não pensava que iam fazer dele o “sistematizador” mor da fé cristã. E foi movido, acredito, com boa intenção: buscou adequar seu discurso ao público alvo; ele tentou se contextualizar. Aprendeu com Jesus – o maior “contextualizador” de todos.

 

E, por falar nisso, Jesus liso e judaico. não caiu na armadilha de sistematizar nada. Não respondia perguntas feitas na demanda de conceitos. Ao ser perguntado quem era o próximo, contou uma história, por exemplo. Deixou um único novo mandamento. Jesus sabia que nenhuma explicação seria suficiente diante da vida, plural, contingente e contraditória que é. Ora, fico pensando, se ele mesmo (Deus-Jesus) criou a vida, pensar que ela poderia ser apreendida em discursos lógicos (contradição – não contradição), seria limitá-lo. Parece que a teologia “sistemática” só abre mão do discurso da não-contradição, para explicar aquilo que não tem jeito mesmo: a ideia de trindade é um exemplo.

É comum ter diferentes pontos de vista?

Além de Jesus ser esperto de não cair nessa arapuca discursiva, o método judaico, de onde vem sua linhagem, sempre foi dialético e contraditório (trabalha com assertivas conflitantes). É comum ter rabis pensando coisas opostas, sem que se desautorizem um ao outro como tal. Não são poucos os pensadores que identificam isso. Flusser, que eu agora já não abraço totalmente, por exemplo, ao comparar os dois métodos discutidos aqui, escreve:

 

“A atitude dialógica é, pois, radicalmente diferente da discursiva. É contestação ativa da agressiva progressividade dos discursos, (científicos e outros), que inundam o ambiente. Mas é preciso distinguir entre dois tipos de diálogo, para captar-se o que está acontecendo. O primeiro tipo visa consenso quanto à ‘essência’, ao ‘ser assim’ do sujeito dialogado, e o segundo visa consenso quando ao ‘significado’, ao ‘ser para mim’ do sujeito. O primeiro tipo é de origem grega, platônica. Termos como ‘maiêutica’ e ‘aletheia’ (trazer à luz e revelar), dizem-lhe respeito. O segundo tipo é de origem judia e dele tratará o resto deste artigo.”

(…)

“O que acaba de ser dito é formulação irreligiosa de uma das mensagens fundamentais da religião judia. O judaísmo é dialógico em sentido não grego: dialoga, não para desvendar essências, mas para descobrir significados.”

(…)

“A limitação quanto ao assunto a ser dialogado, que o judaísmo se impõe, pode não ser ressentida pelos participantes. Cada qual, ao assumir seu ponto de vista específico, contribui ao diálogo com toda a carga intelectual e emotiva que adquiriu ao longo de sua vida, de modo que se pode dizer que o mundo inteiro, vivenciado e refletido pelos participantes do diálogo, vai sendo injetado pelas brechas do texto dialogado.”

(…)

“Mas não resta dúvida que, se há ‘missão judaica’, esta não pode ser senão este tipo de fantasia, seguido de ensaios em direção de tais fantasias. No entanto: ensaios assim não podem ser empreendidos na solidão individual, se querem ser fiéis à estrutura do judaísmo. Devem ser, necessariamente, convites a outros para que dialoguem a respeito”.

Multidiálogo grego

A filosofia “greco-romana e, agora, cristã” dialoga para que todos sejam um, em concordar com uma essência já previamente dada – aqui o igual é ser um. Ao contrário, a judaica dialoga para que todos incrementem com suas perspectivas, isto é, intersubjetivamente, o objeto conhecido, não existindo algo já estabelecido – cada um contribui com um lado do mosaico; nessa perspectiva, o igual é a diferença.  

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