em Sobre sua fé

A loucura herdará o Reino

Alguns filósofos na virada da década de 60 para a de 70 sacaram que o estudo da loucura poderia ser foco significativo de pensamento crítico sobre a sociedade em que vivemos.

Dois desses filósofos, aliás, apostaram que a loucura, mais precisamente a esquizofrenia, seria medida de limite e de possibilidade da sociedade capitalista. Esquizofrenia, no wikipédia, é caracterizada por comportamento social fora do normal e incapacidade de distinguir o real do irreal. Pela etimologia, esquizofrenia vem do radical “esquizo” que significa fender, rasgar, separar, e do radical da palavra “frenia”, ou “phrênos” no grego, que quer dizer pensamento. A palavra, portanto, remete a uma separação mental do mundo tido como real para a criação, ou imaginação, de outro.

E qual seria a referida condição de limite e de possibilidade? Dá se mais ou menos da seguinte forma. Para esses filósofos, a sociedade capitalista precisa explorar a crença das pessoas de que a liberdade para criar e experimentar outros mundos não é somente possível como necessária. Experiência concedida pela inovação e pelo seu objetivo final redentor, o consumo. O “esquizo” (um outro mundo de experiências), nesse sentido, é sua possibilidade. Por outro lado, todavia, as forças de tal sociedade não podem permitir que isso vire uma doença, ou seja, se torne uma literal esquizofrenia. Não pode deixar que os desejos de inovação e consumo saiam do controle para criar outros mundos que escapem da produção de mais inovação e mais consumo. Isso significa: nossas estruturais e sujeitos sociais não podem conceber outra realidade que escape da produção de excedentes por meio da acumulação privada, para que se gere demanda de consumo e trabalho, em prol de continuidade de mais acumulação, de mais consumo e de mais trabalho, de uns em favor de outros. A repetição é proposital. Os compromissos sustentáveis de nossa sociedade precisam liberar, mas não podem liberar demais. É coito, mas é constantemente interrompido. O descontrole dos mesmos processos experimentação de outros mundos, portanto, é o que corresponde aos limites dessa sociedade, onde ela pode acabar para se dobrar em outra.

Estou me referindo, quando falei de dois filósofos, a  Deleuze e a Guatarri. Os quais, nessa mesma linha de pensamento, acreditam que, para criarmos novas realidades, é necessário acionar um processo que leve o “esquizo” (a divisão de mundos) à radicalidade. Algo que tenha a marca do esquizofrênico, capaz de desprogramar os comportamentos padrões de que se espera que as pessoas sejam sujeitas dia após dias. Algo que seja uma loucura para esse “mundo real”.

 

Daí esses autores gostarem de se referir a personagens literários como o escrivão Bartebly, do conto de Melville, que, diante das constantes expectativas comportamentais vindas da hierarquia na relação de trabalho, diz sempre: eu preferiria não (I would not prefer to), e não obedecia. Outro filósofo cita o personagem “Poroto” (feijão em português), criado por um Dramaturgo argentino, que tem como preocupação central na vida pensar como irá se desvencilhar das situações comuns que se apresentam todo dia; se vai a uma festa, a preocupação de Poroto é sentar em algum lugar que o permita sair a qualquer momento sem ser notado. Lembro, também, do Bocó de Manuel de Barros. Figuras, enfim, que simplesmente se negam a fazer as mesmas coisas dos mesmos jeitos em todo mesmo dia. E que, por isso, são facilmente listados como doidinhos.

 

O ponto é que, para tais pensadores, a possibilidade de liberação de outros mundos passa mais por reunião de pensamentos e ações que traíam o lógico do real vivido e esperado, do que por uma afirmação da inteligência produzida e louvada nessa real. Fala-se de um modo de vida que escapa. Algo não levado a sério o suficiente para ser neutralizado, mas também nem tido como total loucura para que não possa ser entendido. Um tipo de vida que engana o mais astuto dos inteligentes da ordem estabelecida. Daí o lugar comum de se pensar na arte como caminho para essa experiência.

 

Todavia, como disse um sábio rei judaico, “não há nada de novo debaixo do sol.” E, aqui, eu poderia descrever provas de como Jesus Cristo tinha plena consciência e vivência nessa arte de desarticular pela tangente a inteligência ordenante do mundo real, em prol de um outro mundo possível no coração e no meio da comunidade. Poderia citar o método de comunicar por metáforas cotidianas, sua postura de desprezar o conhecimento das elites, sua disponibilidade de andar com gente simples e à margem, sua opção pelo ser criança, sua sabedoria em não ser pego em discussões técnico-teóricas (leia-se: discussões do poder), seu desapego material, estético e ministerial (os discípulos tinham liberdade para seguir os próprios caminhos), entre outros aspectos.

 

Porém, esse não é o objetivo desse texto. Além do que eu estaria entrando no terreno do convencimento a partir do patrimônio intelectual. Zona cheia de controvérsias, e na qual definitivamente não sou um especialista, como também já desisti de sê-lo.

 

Quero apenas reforçar a proposta de Jesus Cristo sobre o seu Reino, contida na metáfora do tesouro escondido. Cristo diz que o Reino do Deus a qual ele representa é semelhante a um tesouro escondido num campo e, tendo um homem o encontrado, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. Essa recomendação é ilógica. Contraria todas as leis da razoabilidade humana, não apenas na dimensão comercial. Ora, o homem encontra um tesouro escondido, vende tudo o que tem e compra o terreno onde tem um tesouro que ninguém vê e nem sabe o que é. Ele não toma para si o tesouro, não negocia, não faz mais dinheiro ou busca multiplicar seu patrimônio. O homem simplesmente se desfaz de todos os outros compromissos e vínculos terrenos, e compra o campo onde o tesouro está. Ou, como sugeriu o Rev. Maia, protege-no.

 

Essa é uma metáfora com elementos cotidianos. Como gosta de lembrar nosso mestre historiador dominical, Guilherme, Jesus falava pra alcançar o povão. E Jesus, então, ao usar os elementos “vender”, “campo” e “tudo o que se possui”, está em parábola dizendo literalmente que a proposta do Reino Dele é uma agenda política, social e econômica. Primeiro, o homem desapega-se de sua ideologia de mundo até então, segundo, desapega-se de seus patrimônios e investe tudo no campo que esconde o tesouro e, terceiro, consequentemente, muda suas relações sociais de vida. Há uma deserção dos patrimônios intelectuais, dos materiais e dos modos de ser em sociedade. Por exemplo, tal escolha alterará sua relação com o casamento, herança, filhos, alianças, trabalho, etc. O julgamento dos que estivem ao seu redor será: ficou doido! Perdeu o contato com a sua realidade! Irresponsável! Não pensa no coletivo! Um crente! Um Bocó!

 

E, por certo ângulo de visão, perdeu mesmo! Porque agora sua realidade é construída por outras lentes e outros modos, a partir do que irradia do tesouro. Algo “esquizo” ocorreu na sua existência. Esse caminho Jesus chamava de arrependimento. É como dizer: me arrependo de tentar com as minhas posses, pois prefiro seguir confiando na única posse desse tesouro no terreno do meu coração. Só não peça a esse homem coerência. Em face de qualquer expectativa que o tire do foco desse tesouro, ele dirá: “Eu prefiro não”.

 

No caso de Jesus, sua linha de fuga para outro mundo foi tão potente que, quando os poderosos caíram em si, seu modo de falar, ser e agir já havia contagiado mais pessoas e com mais intensidade do que podemos dimensionar. A solução encontrada pelo poder foi condená-lo à morte sem motivo. Afinal, nem ativista político ou religioso Ele era exatamente. Na real, nem era desse mundo.

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